Assim Gonzaguinha cresceu, no Morro de São Carlos, ao lado
de Dina e Xavier, a quem realmente considerava pais, entretanto a mágoa de ter
sido abandonado percorria sua vida, principalmente após o segundo casamento do
pai, que ligava-se Helena, sua assistente , que pouco aceitara a presença em
casa, do menino que havia sido convidado a morar com o pai, o fato de não poder engravidar fazia com que a
estádia do garoto a incomodasse ainda mais, não demorou muito para que Gonzaga caísse na
estrada novamente e para que Helena aproveitasse tal ausência para mandar o
garoto de volta a casa dos padrinhos.
Gonzaguinha então voltou a morar no morro, com ainda mais
mágoa do pai, que aumentou ainda mais, quando este o internara num colégio
interno, devido a problemas que o menino passara a ter com drogas, a estadia de
Gonzaguinha no colégio Interno durou até o momento em que este adoecera no
internato, sofrendo da mesma doença que matara sua mãe: Tuberculose. Gonzaga
retirou o garoto do internato porém manteve o morando com Xavier e Dina, porém
agora com o convite de morar com o pai assim que se recuperasse.
Foi então que aos 16 anos Gonzaguinha decidiu aceitar o
convite de morar com o pai, e estudar Economia, já que era um sonho de Gonzaga
um filho graduado, ele queria não apenas estudar, mas também ser mais íntimo do
pai, conhecer quem realmente seria o “Rei do Baião”. Esta época foi fundamental
para a formação de Gonzaguinha, já que a escolha de ser mais amigo do pai
tirava o do lado de seus pais adotivos e de seu passado, conforme descrito na
letra de “Com Perna No Mundo” Onde descreve o primeiro período de sua vida, no
Morro de São Carlos, ao lado de Dina e Xavier, e decide homenagear a mãe
adotiva.
“Acreditava na vida
Na alegria de ser
Nas coisas do coração
Nas mãos um muito fazer
Sentava bem lá no alto
Pivete olhando a cidade
Sentindo o cheiro do asfalto
Desceu por necessidade
O Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gente a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar
Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é
Perna no mundo sumiu
E hoje
Depois de tantas batalhas
A lama dos sapatos
É a medalha
Que ele tem pra mostrar
Passado
É um pé no chão e um sabiá
Presente
É a porta aberta
E futuro é o que virá, mas, e daí?
ô ô ô e á
O moleque acabou de chegar
ô ô ô e á
Nessa cama é que eu quero sonhar
ô ô ô e á
Amanhã bato a perna no mundo
ô ô ô e á
É que o mundo é que é meu lugar”
Esteve na casa do pai
até os primeiros anos de faculdade, onde conheceu intelectuais que apontaram
grandes injustiças sociais e onde pode entender o poder não democrático
exercido pelos militares, com quem se rebelou. Gonzaguinha então decidi usar
seu dom, a música aprendida tanto com Xavier, que também era músico, quanto
pelo seu pai, para denunciar os desmandos com a ditadura. Fato que não agradou
ao pai, que também fora ex militar e um tanto simpatizante com o regime que
atuava. Não demorou muito para que pai e filho discutissem por tais ideologias
e Gonzaguinha rompesse realmente com o pai. Nesta época, Gonzaguinha continuou
os estudos, trabalhando para o próprio sustento e edificou-se como compositor.
Foi durante o começo do sucesso de Gonzaguinha, que este
decidira procurar o pai, e ambos conversaram e expuseram todas as mágoas
sentidas, e veio enfim a conciliação, O que modificou radicalmente a obra do
poeta, que nesta época Gonzaguinha não queria falar não apenas de amor, não
apenas de injustiças, mas sentiu-se livre-se para desabafar histórias de sua
vida, e se desmascarar, assim nasceu o álbum “Gonzaguinha da Vida”. Neste
mesmo, 1981, gravou um dueto com o pai, de um grande sucesso do Gonzaga, “vida
de viajante”, nascendo posteriormente uma história turnê de pai e filho: Vida
de viajante. Sem mágoas esteve livre para divulgar a canção Com Pernas no Mundo e contar ao público um pouco de sua vida.
Luis Gonzaga faleceu em 1989, e Gonzaguinha viveu ainda um
ano a mais para iniciar a construção do Museu que manteria viva as lembranças
de seu pai em Exu, cidade natal de Gonzaga, morrendo num desastre automobilístico
em 1990.

